Não foi até há algumas décadas passadas que ter um carro e electricidade em casa era considerado um luxo pela maior parte das pessoas. A sociedade acabou por evoluir e actualmente as cidades estão repletas de carros, bens de consumo e entretenimento de todo o tipo. Basicamente, é difícil estar-se aborrecido hoje em dia.
Os industriais desde o início que tiveram esta visão, o seu papel sempre foi maximizar o consumo, através de agendas políticas e também com recurso à publicidade. Se repararem, é muito raro algum político dizer que estamos numa situação sustentável e que não precisamos de mais crescimento económico. Há uma diferença entre abundância e qualidade de vida, que gosto bastante de salientar neste blog.
O complexo industrial envolveu-se então de satisfazer as necessidades básicas para a criação de novas e inovadoras necessidades. Actualmente está muito em voga o empreendedorismo e a competitividade, qualquer empresário sonha em criar algo que seja muito procurado pela sociedade, chama-se a isso “riqueza”, mas este conceito é muito diferente do seu significado literal. A sociedade acabou por se transformar então num talho de vontades supérfluas e inúteis, moldado pelas nossas próprias necessidades exuberantes, incumbidas pela sociedade que nos proíbe e restringe a liberdade, e enfim, de sermos realmente pessoas mais ricas no sentido cívico e social.
As pessoas foram convencidas à noção que não importa o que se tem, é sempre preciso mais e mais. Embora a industrialização da sociedade tenha poupado tempo na obtenção das necessidades básicas, a sociedade decidiu não ir por esse rumo e as pessoas cada mais trabalham em empregos sem qualquer tipo de valor cívico e moral.
Em vez disso, demos permissão aos donos das máquinas para expandir o seu propósito, que não é a redução de trabalho, mas sim “maior produtividade” – com o imperativo de consumir tudo o que a maquinaria conseguisse produzir.
O presidente Herber Hoover no Comité de Mudanças económicas disse .. “Através da publicidade e de outros métodos de promoção.. uma grande quantidade de produção foi criada, acabando por libertar muito capital que estava preso. ” E então celebraram a inovação conceptual : “Economicamente nós temos um grande campo à nossa frente, que há novas necessidades que vão encontrar novas vontades, à velocidade a que são satisfeitas.”
No entanto houve numa empresa americana, com uma visão peculiar, essa empresa era a Kellogg que na altura era a maior produtora de cereais a nível mundial. A Kellogg anunciou que os seus 1500 trabalhadores seriam colocados num horário de seis horas de trabalho diário apenas. O presidente na altura pensou que ao estabelecer quatro turnos de seis horas, em vez das habituais três de oito horas, isso daria emprego a mais famílias. A Kellogg também aumentou um pouco a remuneração por hora para o impacto não ser tão grande no rendimento das famílias.
Embora alguns colaboradores ficassem um bocado ressentidos, as mudanças a longo prazo foram bastante motivantes. Era comum chegar agora a casa mais cedo e passar mais tempo com a família, desenvolver hobbies e apenas ter tempo para apreciar a vida.
Alguns estudiosos afirmam que é possível obter as necessidades da vida em semanas com dois dias de trabalho apenas. No entanto em vez de realizarmo-nos na rica vida social que a Kellogg apresentou, nós reduzimos a riqueza das nossas comunidades, com uma forma de materialismo que nos deixa em isolação com a família, amigos e vizinhos. Simplesmente não temos tempo para eles. Um observador externo pode observar que estamos num caminho esquisito, quase de auto-destruição.
Depois da guerra e apesar da visão da Kellogg ser suportada pela grande parte dos seus colaboradores, voltou ao horário normal de oito horas diárias, porque os líderes e gestores no topo não gostaram muita da ideia. Alguma resistência foi feita pelos colaboradores, que eram tentados com promoções e incentivos monetários.
Fonte e adaptação: http://www.orionmagazine.org/index.php/articles/article/2962/